O quarto da minha avó, um salão de baile com três guarda-vestidos enormes, foi o primeiro lugar da minha existência. Não tenho na memória nenhum cenário de vida anterior, nem o quarto da minha mãe, mais pequeno, ao fundo do corredor, nem o meu, contíguo. Acho que quase tudo o que sei sobre a vida aprendi no quarto da minha avó. Vejo-me com a boca colada ao espelho de um dos guarda-vestidos a treinar o beijo e sentada ao toucador a pôr ganchos e rolos no cabelo, hesitando entre vir a ser quando fosse grande femme fatale ou cabeleireira. Foi ali, no meio daquela solenidade de colchas e cortinados, cómodas monstruosas e caixas de perfumes que, pela primeira vez, a Tita, a minha tia mais nova, me explicou - Maria, um pulha é sempre um pulha. Teria oito anos, ou menos. Mas fui crescendo e a Tita refinando. - Maria, um cobarde é sempre um cobarde. Um cabrão sempre cabrão. Um filho da puta será sempre um filho da puta. Vivíamos assim. Um filho da puta com atestado de filho da puta não passava...