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A mostrar mensagens de novembro, 2008

bombaim

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Foi lá que estrebuchou nos meus braços, ambos ensopados em sangue, antes de se aquietar. Corria atrás de um rickshaw que levava um casal de jovens pálidos e louros e muito tocados pelo infortúnio dos intocáveis. Corria, a menina colhida por um carro que seguia depressa. Só voltei a ver a vida a fugir da vida anos mais tarde quando levei E. ao doutor das outras pessoas para lhe pôr fim à agonia e à nossa aflição. Desde Bombaim que sabia que a morte repara. Na minha não será diferente.

Александр Васильевич Мосолов...

... que dá mais letra menos letra Alexander Vasilievich Mosolov, perfilado por quem sabe da poda e completou o tirocínio do mexerico - não sem se fazer desentendido - como "an extremely heavy drinker" - no original, para não perder nada nadinha na tradução, nem confundir com as personagens ébrias do Dostoievski, que nos detêm para nos redimir. Portanto, temos homem (russo) e temos Avant-garde soviética no seu melhor, tanto mais que em mil nove e vinte e sete - ano em que a obra debutou - a União dos Compositores já era uma colmeia de abelhas assassinas - seguindo à risca o lema (pobre do Zeca), em cada rosto ferocidade, em cada partitura um panfleto anti-burguês . Falando bem e depressa, falo por mim (da herança pesada) e vou-me aguentando nas canetas, o que me autoriza a conceder nova e última oportunidade à antropomorfia sem prestar contas ou roubar a vez a ninguém. Em ouvindo o Zavod (mesmo quando a interpretação é discutível e a captação de som desastrosa) sinto-me capa...

tentativa ingénua de obamizar a coisa

CHANGE HOPE Se repetirmos muitas vezes connosco também funciona?

da mesmice e dos seus prazeres

Se não fossem tão agradáveis algumas coisas (por nós próprios ditas) desagradáveis, não estaríamos assim enrolados na mesmice como na mantinha - piolhosa, mas cá de casa. Qual medo, é mesmo o Masoch.

(o meu) lugar na história

Quando estou completamente fora de mim, a minha pessoa vê-se aflita para refrear o mastim que há em todas as pessoas quando lá longe ou cá perto alguém se faz ao mártir da Pátria e ao Martim Moniz em particular trauteando em inglês de benza-o Deus! sticks and stones may break my bones but words can never hurt me . Esta seria pela pia interpretatio - "ah-ha – now I get it" , mas com toda a sinceridade parece-me que é demasiado tarde para vir aqui protestar que, fedorento por fedorento, quer dizer com preocupações surpreendentemente existencialistas, antes o gatito do Schrödinger . Refraseando com a dignidade possível: les jeux sont faits . Pobres jogos os nossos . Pobres de nós que nem um golpe (bem dado) de misericórdia merecemos.

poema bulímico

Sei que não estou em mim a comer uma bola de Berlim Toca o sinal de alarme quando peço um folhado de carne E sinto-me quase de rojo a engolir comida mete nojo Mas na verdade não quero vomitar só enfardar, enfardar, enfardar

lamechice, com a ajuda do Divino, para o Diogo

Foi bonita a nossa festa, pá Fiquei contente E por favor guarda alegremente mais um charro para mim Não murcharam nossa festa, pá E certamente Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim Há dez anos a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei, também, quanto é preciso, pá Navegar, navegar Canta primavera, pá (depois de amanhã) Cá estou carente (por enquanto) Manda novamente algum cheirinho de alecrim

life's (most common) dilemma

motu perpetuo

Double bind , na forma austera (ainda que algo infantil) catch-22 . Não sei como ou por que caio sempre na mesma esparrela – será do meu horror a decretos divinos salvíficos? Lá vou eu outra vez . Já cá volto para pôr outrem a contar como é – e quanto conta ele sem rodeios, sem ideal-tipo do enriquecimento liberto das amarras da ética lamechas e tipologias da desonra sexual e acima de tudo, do Povo (que é sereno e distingue a afinidade electiva entre a fumaça) e do diabo (que truz-truz espreita atrás da porta empoleirado para parecer maior e mais malvado do que é) sem deixar que, por um acaso ou por uma lufada de ar fresco, lhe descubram a dramática redução das área e densidade capilares.

the Fall's dilemma

Come on let me know

morte, vida

Morreu o senhor João do Tokyo. O senhor João Alegria. Sabíamos que ia morrer, não sabíamos que haveríamos de saber disso quando entrámos para festejar a vida, à terceira hora da manhã. Foi a C. que me contou: tive agora um choque. a J. disse: é a vida, C. E a C. riu-se por J. lhe estar a dizer isso, a ela. Chorámos e não parámos de nos embebedar. Gosto do álcool e do seu efeito amoroso: dizemos melhor que nos amamos uns aos outros quando estamos ébrios. That's my people.

three weekend sentences for a picture

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Weekend is family time. The weekend is coming up. Daddy's weekend.

brincadeira

Ele chama-lhe uma brincadeira engraçada , eu baralho e dou de novo. Ele (com letra capital e, dizem, mão pesada em qualquer circunstância) não dorme, mas mantém distância prudente. Alguém mais afoito e inspirado e menos rouco do que eu diria: não admira (que se conserve conservando-a), com sortidos germanocêntricos não se brinca.

as coisas que acontecem

Sou feliz, disse agora o meu amigo budista, sou uma pessoa a quem acontecem coisas. E eu tive que lhe dizer que sim, que tamém A quantidade de coisas que me acontecem

the illinois enema bandit

Perigo, violar, jogo limpo? Nossa. Não tarda o bom do João, meu homónimo, do Calvino, do Ratão e de mais uns milhares de milhões seja na berlinda sejam amordaçados e/ou à nora – espécie de irmandade de porém onde os Carlos e os Josés (Zés incluídos) definitivamente não entram, está a chamar ao (futuro) timoneiro da grande nau The Illinois Enema Bandit (quem diz Kenyon diz Quénia, e quem chega ao Quénia é um ver se t’avias e já ali) – a homenagem (ao Zappa), essa é qu’era (insólita): caía aqui que nem chavão no deserto antes da episódica tromba d’água. Razão têm elas . Somos todos fêmeas à espera de ser cobertas à fila – boa ou má, a tempo e horas, a cartografar o regabofe nos impactes tardo-capitalistas sobre o Porto de Lisboa e o Vale d’Alcântara (sim, a actualidade e o trabalho de casa ainda são o que eram; e os gadgets prometem), os cronistas do futuro dirão.

príncipe

Consta que dele terá dito o Herbert (von Karajan): é o Mozart dos nossos tempos . Não se conhecendo ao Generalmusikdirektor – que Deus o tenha (arreado d’alto a baixo sem dó nem piedade) – mais do que um gesto de enfado perante aquela secção em que o Marx trata do fetichismo da mercadoria – aproveitando como quem quer muito a coisa para meter mais um bocadinho no bolso da direita a economia política clássica – fico na dúvida: elogio ou crítica mordaz? Hoje – e hoje não me basta para recuperar do élan e das elevadas querelas do Congresso e dos acordos de cavalheiros feitos sem objecto mas com a esperança intacta – tendo para o aplauso e por conseguinte menos para a censura. A noite passada, entre segmentos e fracções sonhei com o BHO the second, president-to-be a movimentar a anca e o elmo enquanto um cantor de charme d’altíssimo coturno internacional emprestava a voz e a mula(ta) para, vencido mas não convencido, entretecer uma oitava acima da notação do compositor os versos Seems...

ponto de reconciliação

Outro dia assim límpido e ainda acabo por aceitar aquelas desculpas estúpidas e esfarrapadas. Estou quase a perdoar o cúmulo da idiotia. Outro dia assim e talvez volte a falar comigo.

a infelicidade enquanto cão

Passear a infelicidade como se fosse um cão. Fazer-lhe festas no lombo, acariciar-lhe o focinho. Meter a infelicidade na cama e sentir o calor antigo. Oh, o conforto da infelicidade a abanar o rabo, fidelíssima; a lamber as pernas, matreira; a ganir, apalermada; a ladrar, quando cheira alguém estranho. Leva-se à rua a infelicidade e há sempre quem meta conversa: - Essa infelicidade é sua? Coitadinho, que ternura, coitadinho. E então alimenta-se a infelicidade com bocados de carne (própria) e goza-se a bestial pacificação do estar na merda.

(a provação do) hiiripöllö

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A Norte miram-me e traduz-se em dano. Soslaio, viés, a obliquidade triunfante, tanto género apostado em sequestrar a disforia para que não dissolva a (ansiosamente aguardada) decepção, nem hoje nem nunca. No peito, um peito fechado, vivo ainda - a posição fetal traída pela agulha que vai dentro (da carne) entre os interstícios da vértebra; a respiração determinada contra a dor, o brio contra a infantilização, velha e poderosa arma de pauperização da alma. O Hiiripöllö? Compara e é magnífico sob o céu pardo e trágico d'Inverno. Não é só uma certa Eminência que conhece corujas com nomes mortais.

um pulha é sempre um pulha

O quarto da minha avó, um salão de baile com três guarda-vestidos enormes, foi o primeiro lugar da minha existência. Não tenho na memória nenhum cenário de vida anterior, nem o quarto da minha mãe, mais pequeno, ao fundo do corredor, nem o meu, contíguo. Acho que quase tudo o que sei sobre a vida aprendi no quarto da minha avó. Vejo-me com a boca colada ao espelho de um dos guarda-vestidos a treinar o beijo e sentada ao toucador a pôr ganchos e rolos no cabelo, hesitando entre vir a ser quando fosse grande femme fatale ou cabeleireira. Foi ali, no meio daquela solenidade de colchas e cortinados, cómodas monstruosas e caixas de perfumes que, pela primeira vez, a Tita, a minha tia mais nova, me explicou - Maria, um pulha é sempre um pulha. Teria oito anos, ou menos. Mas fui crescendo e a Tita refinando. - Maria, um cobarde é sempre um cobarde. Um cabrão sempre cabrão. Um filho da puta será sempre um filho da puta. Vivíamos assim. Um filho da puta com atestado de filho da puta não passava...

o perigo

Isto está um perigo. Não lhes bastava dominar o porno e as corridas automóveis? [em local mal iluminado e frequentado, mais propriamente em pleno viveiro de intelectuais remediados e/ou que se pelam por estados mentais impessoais, segredado por caucasiano fora de forma, a desbaratar os bons ofícios e o calibre humano dos nossos irmãos de cor que sabem, como ninguém, que uma desgraça nunca vem só quando a esmola passa da marca foolsproof e há que andar todo o Inverno a recordar que "por cá, esprit de clocher nem entre as badalhocas do Porto"; e depois como quem não quer a coisa ainda teve o descaramento de mandar atender ao] cotejo dos critérios de justiça e reparação histórica da distante e invicta América no desejo cifrado e remoto da Gertrud do Dreyer. [não explicou mas explico eu: só para rematar com o devido filete o módico de vida airada de que se retardará até que sobrevenha cadáver a entrega aos germes, às bactérias e a outros seres vivos que estejam na calha porqu...

(a propósito de) cotejo

Mamas e coiso . Não aprecio, mas é muito, muito desmoralizador para quem, como eu, anda às voltas com a pergunta: quem sou eu.

cautela e muitos caldos knorr

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Que pena Glicério estar ausente. Poderíamos recordar, com saudade, os tempos de Arabela. Já não é donzela, nem Arabela. É a senhora Jorge de Figueiredo. Mas… paremos por aqui; o prudente é não falar em mulheres dos outros, mesmo de modo platónico. O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não aguentam pancada. O Amanuense Belmiro , Cyro dos Anjos Paremos, paremos. Não vá o dito ter trombas (e o cabedal) do senhor cuja beleza interior a foto tão bem capta, Tom “Hurricane” McNeeley, campeão de Boston e da Nova Inglaterra de pesos-pesados muito antes dos pretos, peço desculpa: afro-americanos tomarem definitivamente conta desta merda toda.

Coimbra

Coimbra é um tanatório junto a um rio. Vim agora de lá e só vi mortos. Mortos mais jovens na universidade, mortos mais velhos à volta dos hospitais. Há mortos atirados para as esplanadas e mortos com livros debaixo dos braços entre o arco da Almedina e o Quebra-Costas. Vi mortos com câmaras fotográficas ao ombro: arranjam lentes específicas para captar a inexistência. O cheiro de morte engordou as mulheres (ficaram toucinhos lustrosos) e os homens perderam a tesão. Corrijo: ficam duros quando falam da falta de tesão dos amigos íntimos. Entre os Olivais e a Cruz de Celas, todos os carros parecem funerários. E na baixa, à porta do TACV, em Santa Clara, no Jardim da Sereia, nos centros comerciais manhosos, na Portela, no Calhabé, no Norton de Matos, nos subúrbios miseráveis ou nas relíquias de Santa Cruz e do Salão Brasil, há uma atmosfera de cera derretida, um halo de desespero e de não-vida, como se a cidade inteira estivesse inscrita no crematório e se aguentasse à espera de vez.

contra a solidão agreste Luís Gonzaga é tiro certo

Diogo Calhau, não perdes pela demora

pega esse avião, você tem razão em fugir assim deste frio

E agora como é que eu faço sem ti na fábrica. Ao lado de quem me sento na reunião dos chefes de turno. Com quem é que vou fumar na janela que dá para o saguão. E quem vai assobiar pela escada abaixo Não se afobe não que nada é pra já o amor não tem pressa ele pode esperar em silêncio E quem me sobra para falar da desestruturação do sujeito . E como é que eu faço sem ti. Como é que eu faço sem ti. Como é que eu faço sem ti.

caiu o muro da vergonha

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yes we could, yes you could, Barack Hussein. Acabaram-se os muros. O criminoso devia agora ser enviado para o TPI. Somos todos americanos, pretos, contra a tortura e a guerra e amamos-te América.

eleven four

One day (l)on(e)ly, 'cause ain't no way to overlook how (sad) the song goes In case, just in case of depression? Sit on your hands on a bus of survivors Blushing at all the AfroSheeners Ain't that close to love? Well, ain't that poster love? In any case, hopefully one big black day.

num dia assim

Tão mesquinha a tristeza mansa e tão ridículo o desespero brando quando se vê alguém a apanhar com o horror nos cornos.