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A mostrar mensagens de março, 2008

obrigadinhos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Um billet doux para todos vós e quem mais vier por bem. Com bónus. O músculo a mostrar-se entre as presas aos segundos vinte e cinco e vinte e seis do minuto do meio. Para apreciar com os pés postos à parede (para prevenir a coisa máxima de ir lá com a cabeça) e sem meter a representação espontânea ao espelho. Mas vejam o que fazem. Não espalhem que somos capazes de ser pontualmente atenciosos. In a peculiar way.

hegel for beginners

Ao lado do fogão, Anaoj vira-se para mim e pergunta: Você que é estudado, pode me dizer, o povo mais velho veio do quê? Respondo, do macaco . Sou o único a rir. Séria, sem se alterar, Anaoj corrige: Do porco . Vestindo a carapuça, ainda digo: É por isso que a gente tem espírito de porco? Anaoj não ri. Procurando consertar o estrago, retomo a conversa: É bom ou é ruim, Anaoj, a gente ter vindo do porco? Anaoj responde: Não é ruim não, João. O porco não é animal ruim. Não é que nem o cabrito. O cabrito é um dos últimos animais . Num gesto em que se espelha a perplexidade do pesquisador, a própria Anaoj hesita, interrompe a narrativa e, depois de alguns instantes, recomeça: Não é assim não. Quer ver? Não é que o porco virou gente. Mas, no princípio do mundo, teve gente que virou porco. Você já viu porco de brinco? Lá em Minas tem muito. Dizem que as mulheres é que viraram porcos de brinco. E quando o mundo acabar aí vai virar tudo de novo pra nós ver como era no princípio. Mas, só por ...

pro maneta

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Firmava a vida no pecúlio carnal quando dei por mim a ler: “the top of you’s by no means hors de combat . You’ve got the life of the mind sound and intact.” Viria a calhar, tanto ou mais quanto o palmo de altura que me falta para estreitar relações com as meninas destas novas gerações sem me esticar ao comprido. Infelizmente, calha que o catequista que o proclama é porta-bandeira do que há de mais totó – não se faça por menos – nos intelectuais. Não, não se trata de álibi negro. Nem pago com o meu fardo em ouro me prestaria a ter o Lawrence (de Lady Chatterley's lover ) como objet de transfert . Para dissídio bastam-me este rosto de copo-de-leite que passeio quando o rei faz anos e a velinha acesa junto ao Menino Jesus que conservo no aposento mais privado/incivilizado da casa. Ao cabo, valem-me as pernas – que também têm que se lhes diga – e a fantasia contorcionista de morder os meus próprios calcanhares. Até ver a reputação de (mais um) mão-de-padre fica guardada na arca dos úl...

algorithmus proportionum

No antigo Livro da Segunda Classe , edição de 1958, lia-se: No berço, aprendi a dizer Mãe. Ao colo de minha Mãe, aprendi a dizer Pai. Depois, Pai e Mãe ensinaram-me a dizer Deus […] Na família, na escola e na igreja, hei-de aprender a conhecê-los cada vez melhor. Isto não é o que parece: marcador silencioso – para quem aprecia o género – do fim de um idílio, a escola pública a saque, pessoal docente e não-docente encurralado por chusmas de babuínos (símios muito mais temíveis que os chimpazés ou os gorilas), ademanes conformes, fiasco atrás de fiasco, erro (crasso) sobre o objecto do contrato social, a História e a Civilização a andarem para trás. Cura-se aqui singelamente de tentativa de demonstração cabalística de que o bom senso anda muito mal distribuído. Pelos meus cálculos conservadores 2/3 estão entregues à bicharada. Para os entendidos, versados e expertos peço compreensão para qualquer imprecisão de aprendiz. A sorte de principiante, como toda a sorte, só protege os audazes.

antes assim do que falar para o boneco

Pois é . De malditas a mal-ditos , e pouco mal-entendido. Sem alma para a estopada do dize-tu-direi-eu, que a pontinha dos caninos lhes luza. Hoje mas só hoje até estendo a mão (à dentada). É com uma ponta de emoção que participo que a Judith Butler continua à solta .

scrutantibus gehennas parabat

Cada um resgata a sua dama como pode. Puxando bem pela língua (a cabeça não é pr’aqui chamada) lembrarei aos inconformados que Ele concebeu o Inferno para os que não largam o osso . [não-sei-das-quantas apud Santo Agostinho]

explicação da veia poética

Por que não dei férias durante dois longos dias às (vossas) indisposições d’alto-ventre, a maneira simpática e cortês de colacionar náuseas e vómitos? Se quereis saber a verdade, a gaiata, recém-chegada de Montréal (a do Québec), atirou que a minha prosa tinha magnitude poética, un je-ne-sais-quoi touchant e eu queria muito pô-la de patinhas para o ar. Queria mas não quero mais. A talhe convexo nada acontece com naturalidade. Nem tão-pouco por acaso. Consolo? Era a oportunidade por que esperava para datar a expressão: acabou-se o que era doce .

meditação sobre o ser-para-a-ordem

A notícia fresca consiste na insolência das crianças apendículo da não-mão das pessoas crescidas e da impunidade universal, coisas que não podem ser é a cosmocopia da facção burguesina, que sequestra a alteridade e os dois tempos dos homens no decorativo pavilhão tudo rui nesta sociedade caduca por defeito a plica do Soberano formidável (bem) haja quem proteja dos feros animais.

no solo (fecundo)

A raiz enraíza guiada pela humidade onde proliferam os seus fungos mortais.

no campo (humanizado)

Rompia a manhã esplêndida e fria Para o cavalo formidável, hípico. Vencia um declive agro quando foi surpreendido por um peregrino que o degolou precisamente.

in illo tempore

A dormência não era ainda constante evolutiva e a inocência expunha-te à pulsação do idioma visionário. Pela ordem estabelecida explicaste Dar-te um filho para me salvar desconhecendo que já vigiava a mutação do sentimento pleno em vínculo asfixiante.

anamnesis

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Roger Mayne, View with footballers , Southam Street series, circa 1956/61.

stricarm' in d'na parola

Prensa-me numa palavra – tradução que (se) faz (à) pena (e à gíria). É o título de um poema em dialecto luzzarese de Cesare Zavattini, pioneiro, manifestante, vedor e cão-de-fila do neorealismo, argumentista entre outros de Sciuscià e Ladri di Biciclette . O mesmo que, emocionado e sem rebuço, rotulou Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha (finalmente) un film di cazzo duro . É inútil saltar da cadeira. À parte umas pièces de résistance e uns imponderáveis de canivetes, expediente e guias-de-marcha, paranóia e tabiques com ouvidos para vozes vindas não se sabe donde, lentes e pílulas que enrolam (n)a língua antes de deslizarem goela abaixo, pai-dos-burros e contos do vigário em que formigam hinge words , dinheiro e casas, primeiras, no subúrbio e no mato ou no penhasco, e o inerente trânsito de coq-à-l’âne , a canalha – pirralhos, varões não parasitas, veteranos de luas-de-mel e eu ao barulho – não tem nadinha que saber. Haja Deus e esperança de que o apogeu do género ain...

their first murder

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Weegee, Their first murder , New York City, October 9, 1941. A woman relative cried... but neighbourhood dead-end kids enjoyed the show when a small-time racketeer was shot and killed , wrote Weegee in the caption accompanying this startling photograph in his 1945 publication Naked City .

peyronie

Que terá esclarecido le Bien-Aimé enquanto desaconselhava piparotes e gestos intempestivos em geral: é quando funciona às mil-maravilhas que mais dá para o torto. Há dois ou três (meretíssimos) leitores que não me deixam mentir ou contar uma má história. Os outros (e as outras – why not? ) dedicarão – se puderem – um tempinho à circunstância. O vocabulário da arte inclui curvatura, ângulo, graus, ampulheta, túnica albugínea, corpos cavernosos, placa fibrosa e adjectivança seleccionada exclusivamente entre nomes de estalo raramente conjugados no superlativo e no salão literário e nunca na Casa do Senhor, salvo na f(r)icção avant-pop e nas palavras-cruzadas das revistas da especialidade.

peri bathous, or the art of sinking in life

Não fosse o programa olímpico do Karajan – que é incapaz de dissociar o trágico do dramático – também eu estaria maduro para a Casa Amarela (o seu a seu dono, d’Eles, Alexander, Ludwig e João, ao Carl Maria Friedrich Ernst von Weber). Não é por boas razões que não encerro a mise en abîme da minha existência.

methinks

[Queen-player] Both here and hence pursue me lasting strife, If, once a widow, ever I be wife! [Hamlet] If she should break it now! [King-player] 'Tis deeply sworn. Sweet, leave me here a while, My spirits grow dull, and fain I would beguile The tedious day with sleep. [sleeps] [Queen-player] Sleep rock thy brain, And never come mischance between us twain! [the two players exit] [Hamlet] Madam, how like you this play? [Queen Gertrude] The lady doth protest too much, methinks.

a gente não (te) esquece

La meilleure part de notre mémoire est hors de nous, dans un souffle pluvieux, dans l’odeur de renfermé d’une chambre ou dans l’odeur d’une première flambée, partout où nous retrouvons de nous-mêmes ce que notre intelligence n’en ayant pas l’emploi, avait dédaigné, la dernière réserve du passé, la meilleure, celle qui, quand toutes nos larmes semblent taries, sait nous faire pleurer encore. Hors de nous ? En nous pour mieux dire, mais derobée à notre propre regard, dans un oubli plus ou moins prolongé. C’est grâce à cet oubli seul que nous pouvons de temps à autre retrouver l’être que nous fûmes, nous placer vis-à-vis des choses comme cet être l’était, souffrir à nouveau, parce que nous ne sommes plus nous, mais lui, et qu’il aimait ce qui nous est maintenant indifférent. Marcel Proust, deificando a mémoire involontaire , por oposição à memória (estéril) – que ele quase desdenha – da inteligência. O grande cisma do reino animal ainda, banda mutilatória. Encolho os ombros – não é bonito...

uschi

Lolita por jeune demoiselle (em traje estival), a brigada do reumático (ponham lá o dedo no ar) não é menos (filha de Deus) que as outras (que andam por aí a contar escopetas). Também tem direito a romper o contrato moral. Tanto mais que ela – não me digam que é preciso discriminá-la positivamente – e as outras, da bula muito lá de casa espaireciam a tirar as medidas (e as crostas) a mariolas e salta-pocinhas de queixo caído cujos corações empolgavam mais que cinco dias. Não abro apetites? Era de prever. Cheira a armadilha – as peripécias do manufacto de engenhoca explosiva truncam os piores pensamentos – mas não há qualquer razão para ficar com um olho no burro e outro no cigano . Só prova que não se pode contar com a natureza. Não há direito de avelhentar uma coisinha assim.

óptica pia

As crónicas falam de cem mil colegas, do Marquês ao Terreiro. Toca a reunir as mães de Lisboa .

ela

Quando, em 1953, Kathleen Ferrier sucumbiu alguns jornais ingleses preencheram a primeira página informando She died . Só. Sem nome. Sem fotografia. Sem mais. Ela morreu.

a vida dele

O que vocês levaram de lá? Nada... a vida dele .