Todos os meses assoma à porta. Vem num pé lesto, porém esquivando-se à data certa. Se me vê, antecipa: já não venho cá há tanto tempo e não volto tão depressa . Segue-se-lhe assunto de penar, desgraças dentro da desgraça, peripécias mais e menos verosímeis conforme as vazas. Em podendo, não me quer. Quer mulher, que se compadeça do esmoler nas roupas e nas alparcas, no pano que lhe vela o cabelo, nas facturas e nas receitas médicas, amarfanhadas, na pele encascada, na penca escura, nos dentes cariados, no hálito ranço, nas chagas que expõe com pudor teatral. Que endormente e consinta, que não a embargue pela indiferença, que não lhe exija vassalagem, o canto da esmola, gratidão real, contrapesada na cláusula da boa acção, a caridade que os lacaios miseráveis precipitam para abater no cadastro dos pecados. Nunca traz escolta, não espera entrar. Quer o costume. Abono, mercê sem interrogatório nem recomendação. Tal qual a mãe. A mãe era de meus pais. Do tempo em que eu pulava escadas abai...