Dream of the Rarebit Fiend , Winsor McCay, 1913 strip.
My nightmare, Richard Kern, 1993
*Mas o gajo é uma fraude e um pulha que faz que liquefaz a transgressão e vice-versa. Parodiar o frenesi do visível para minar a indexação do caso à norma moral e à fórmula pornográfica? Toca a’ndar que não sou eu que lhe vou louvar o porte e a lolita, a árvore das patacas. Não fora o olhar judicial e geralmente não saber para que lado me virar e ser atreito a fantasias passageiras, consideraria tudo isto rasgo da Providência pior que o ponto e vírgula e o Domingo. Ufa, que é preciso respirar fundo para ler esta prosa e não ficar detido nos pormenores. Como se não (me) bastassem a refrega escolar e os molti personaggi in cerca d'autore.
Berlin Horse, Malcolm Le Grice [music by Brian Eno], 1970
*Em contagem decrescente para acordar abruptamente e exibir material pornográfico hard core, sem censura, sem distorção gráfica, sem truques de última hora ou soluções de recurso, só porco e badalhoco como todo o Povo XY e a parte interessante do XX gostam.
E vão lá chatear outro com a história de que isto anda muito morno e desenxabido.
M - Eine Stadt sucht einen Moerder, Fritz Lang, 1931
Pickpocket, Robert Bresson, 1959
De nåede færgen [They Caught the Ferry], Carl Th. Dreyer, 1948
Charlotte et son Jules, Jean-Luc Godard, 1960
Jean-Paul Belmondo, Anne Colette, Gérard Blain
O rapaz chegou do caminho ermo de terra lamacenta que rompia do mato denso. Após se anunciar fazendo vibrar a velha campana parcialmente carcomida pela oxidação, entrou no portão, atravessou as lajes de pedra cobertas de gravilha e folhas que a morrinha e o ar morno haviam molificado formando um sedimento que amortecia sua marcha e deteve-se. Antes de falar, solevou a boina que trazia descaída sobre a nuca. Maria Elisa, não cisma, não. É preciso, ou estes senhores ficam órfãos de luto e depois arreliam-se e desaguisam uns com os outros e em sérios perigos ficam, claudicantes. Dá-me a mão, vai.
Maria Elisa esperava-o e não esperava estranhar. Tanto, pois que foi, como a quem é desvendado um segredo que não pode transitar entre vivalmas. Pegou na sombrinha que estava encostada à coluna direita do pórtico da casa, abriu-a numa abertura de gente casual, tomou o lado de fora da porta e disse, pausando na sílaba do começo: tenho mêdo. Assim, abaixando a cabeça, recolhendo-a entre os ombros, muito menina de carapito no cabelo, a cara encovada, a voz sumida, a saia subida para mostrar as meias de seda rosa a dizer com o xaile delicado que lhe velava os ombros.
Ai, Maria Elisa, olhe bem para mim: acha que vim aqui para cortejá-la? Só lhe trago uma ideia fixa. Fez a forma da concha das mãos. Pula aqui, vai.
Maria Elisa olhou, como ele instruira, ainda inquieta, mais que pressentida. Eu sei que não, mas mulher nunca perde o brio, nem quando vira natureza singela. E quis dialogar. Diálogo curto, incisivo.
- Aonde irei agora?- Isso importa? Tu está acontecida, Maria Elisa. Não puxa conversa que tonteia. As fábulas do verbo são d’atrás, do amanho bom e mau do coração. Põe ponto. Vem.- E se a minha alma pena?- Que à toa, Maria Elisa. Não regateia com coisas que sobejam o trato humano. Prosseguiu já em jeito de pia-melopeia:
As copas das sequóias gigantes
E dos jacarandás mimosos
Perdem a silhueta
Quando as nuvens interpõem
Separando a Terra do Céu.
Entendeu agora, Maria Elisa?- Sim, cheguei onde estava desachando. Nostálgica, me atarantei, um certo rebuliço. Daí procrastinava, mas só um pouquinho. Eu vou. Vamos, então.
Nesse instante o rapaz descartou seu próprio corpo de tez mate fluindo para a forma do Cão. O cachorro-alazão, um arraçado Molosso e Dogue Alemão luminoso. Maria Elisa sem perder tempo subiu no dorso do animal de grande porte e focinho oblongo, o guia possante e fiável. Fixou-se com ambas as mãos ao pêlo cerdoso da cerviz, que empinou. Se comediu, na razão de sua tenacidade. Estou pronta. Pode ir. Tomaram o carreiro ermo e entraram no mato cerrado. À passagem a fronde limítrofe agitou-se exprimindo actividade intensa, que de longe soou a farfalhar de sorve-mácula. A cisão assombrosa. Do que fôra matéria orgânica.